
Dentre as muitas histórias contadas na mitologia grega, uma das mais memoráveis é aquela que diz respeito ao mito de Prometeu, o mecenas da humanidade.
Diz-se que Prometeu - titã que ajudara os deuses olímpicos em sua épica batalha contra outros titãs pela supremacia do Universo -, em um de seus lampejos, decidira por conceder aos homens algo que lhes fora tomado por Zeus, o fogo.
Ao tomar conhecimento do que se sucedera, Zeus, como punição, acorrenta Prometeu ao Cáucaso, sentenciando-lhe a uma eternidade de sofrimento ao invocar um abutre cuja dieta consiste, basicamente, de fígado de condenado.
O fogo seria, na interpretação dos gregos antigos, a origem da civilização como nós conhecemos. A civilização ígnea.
Mas e se não fosse?
Para melhor ilustrar esse ponto, peguemos, por exemplo, um simples objeto: uma cama de madeira.
Vamos enumerar, pelo menos, 3 características desta cama que nos são visíveis à primeira vista:
- Retangular;
- Feita de madeira;
- Apoiada sobre o chão;
Algo de natureza absolutamente diferente, dotado de qualidades essenciais bastantes distintas, pode ser criado a partir de um paradigma prévio. A simples chave desse processo criativo reside na aplicação do mecanismo de não. Pura metafísica aplicada ao empiricismo da existência.
Voltemos à mesma cama de antes. Pensemos, a partir do modelo de objeto previamente estabelecido, em algo diferente. Uma cama, portanto, que:
- Não seja retangular;
- Não seja feita de madeira;
- Não esteja apoiada sobre o chão.
O que obtemos?
Uma cama também, ainda que muito diferente daquilo imediatamente concebido em nossa mente ao evocarmos esta palavra.
Há, no entanto, a chance de que, a partir deste mecanismo, criemos um objeto tão absurdo e tão novo que não nos é mais dada a possibilidade de o categorizarmos sob os mesmos nomes de outrora. Dadaísmo lógico.
O Não estabelece os limites que abrem as portas para o pensamento ilimitado.
Esta consideração nos remete à fábula grega com uma pergunta em mente:
Fizemos bem em aceitar o fogo de Prometeu?
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