sábado, 25 de julho de 2009

O Fantástico Mundo de Não - Parte 2: A Civilização Ígnea


Dentre as muitas histórias contadas na mitologia grega, uma das mais memoráveis é aquela que diz respeito ao mito de Prometeu, o mecenas da humanidade.

Diz-se que Prometeu - titã que ajudara os deuses olímpicos em sua épica batalha contra outros titãs pela supremacia do Universo -, em um de seus lampejos, decidira por conceder aos homens algo que lhes fora tomado por Zeus, o fogo.

Ao tomar conhecimento do que se sucedera, Zeus, como punição, acorrenta Prometeu ao Cáucaso, sentenciando-lhe a uma eternidade de sofrimento ao invocar um abutre cuja dieta consiste, basicamente, de fígado de condenado.

O fogo seria, na interpretação dos gregos antigos, a origem da civilização como nós conhecemos. A civilização ígnea.

Mas e se não fosse?

Para melhor ilustrar esse ponto, peguemos, por exemplo, um simples objeto: uma cama de madeira.

Vamos enumerar, pelo menos, 3 características desta cama que nos são visíveis à primeira vista:

- Retangular;
- Feita de madeira;
- Apoiada sobre o chão;

Algo de natureza absolutamente diferente, dotado de qualidades essenciais bastantes distintas, pode ser criado a partir de um paradigma prévio. A simples chave desse processo criativo reside na aplicação do mecanismo de não. Pura metafísica aplicada ao empiricismo da existência.

Voltemos à mesma cama de antes. Pensemos, a partir do modelo de objeto previamente estabelecido, em algo diferente. Uma cama, portanto, que:

- Não seja retangular;
- Não seja feita de madeira;
- Não esteja apoiada sobre o chão.

O que obtemos?

Uma cama também, ainda que muito diferente daquilo imediatamente concebido em nossa mente ao evocarmos esta palavra.

Há, no entanto, a chance de que, a partir deste mecanismo, criemos um objeto tão absurdo e tão novo que não nos é mais dada a possibilidade de o categorizarmos sob os mesmos nomes de outrora. Dadaísmo lógico.

O Não estabelece os limites que abrem as portas para o pensamento ilimitado.

Esta consideração nos remete à fábula grega com uma pergunta em mente:

Fizemos bem em aceitar o fogo de Prometeu?






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